Por que é tão difícil zerar a dívida no cartão
de crédito?
Pagar uma dívida é sempre uma tarefa árdua, mas no
caso do cartão de crédito ela é ainda mais difícil.
Em primeiro lugar isso se deve à facilidade com que atualmente se
obtém um cartão de crédito. Pessoas de um bom poder
aquisitivo acabam acumulando vários cartões e, se não
forem conscientes no seu uso, rapidamente perdem o controle.
Não bastasse isto, trata-se de uma linha pré-aprovada, de
forma que basta ir ao shopping e gastar. Você não sente no
bolso, é diferente do talão, no qual o simples fato de preencher
o valor reforça a percepção do gasto. Junte isso com
o fato de que você pode optar por pagar menos do que lhe é
exigido, rolando assim a dívida, caso não tenha recursos suficientes
- que não é difícil entender o porquê de tantas
pessoas acumularem dívidas no cartão.
Resistindo ao impulso de gastar
A primeira providência a tomar neste caso é simplesmente não
incorrer em novos gastos no cartão. Imagine que no mês passado
não pagou o valor mínimo exigido na fatura, rolando parte
da dívida. Não bastasse isso, neste mês você gastou
um pouco mais no cartão
.
Reflita friamente sobre o caso. A menos que no mês anterior algo extraordinário tenha acontecido, comprometendo seu orçamento, ou que neste mês você esteja esperando um rendimento extraordinário, o mais provável é que, quando receber a fatura deste mês, novamente não conseguirá efetuar o pagamento mínimo.
Não é preciso muito conhecimento financeiro para ver que,
mesmo ignorando a multa por atraso de 2%, o simples fato de rolar a dívida
faz com que ela cresça 10%, que é o valor da taxa média
cobrada nas operações de cartão de crédito.
Mas, não para por ai. Quanto mais você adia o pagamento da
dívida, mais ela cresce e pior fica o seu histórico de crédito,
o aumentando as chances da administradora de cartão decidir elevar
a taxa que cobra de você
.
Perseguindo um alvo móvel
Você finalmente decidiu pagar integralmente a fatura, e no mês seguinte não incorreu em novos gastos. Ainda assim, recebeu um extrato contendo um saldo residual a pagar no mês seguinte?
Situações como estas não são incomuns e acontecem pelo fato de que o valor impresso na fatura não necessariamente reflete o valor da dívida no dia em que você efetuou o pagamento. Afinal, a fatura é emitida antes da data de vencimento do pagamento, e neste caso o valor da dívida sendo corrigido diariamente faz com que haja um saldo residual. Isso sem falar na possibilidade de você ter incorrido em gastos adicionais, que não foram computados até a data de emissão da fatura.
Depois de acumular um saldo devedor tão grande, a vendedora, Vânia
do Amaral, desprezou a cobrança de R$ 200 que veio na fatura do mês
seguinte. "Acreditei que era um erro, afinal eu havia quitado uma dívida
de quase três mil reais no mês anterior", afirmou Vânia.
Mas não era, e seguindo à risca seu plano de não gastar
mais no cartão, a vendedora quebrou o cartão e ignorou as
faturas.
"Na verdade mudei de endereço, e como já havia pago o
cartão, não me preocupei em transferir a correspondência".
Como não efetuou nenhum pagamento, a sua dívida subiu para
R$ 224 no mês seguinte, e bastou atrasar mais um mês, para a
taxa ser revisada para 15%. Depois de quatro meses a dívida dobrou
e, em um ano, ela já era de pouco mais que R$ 1 mil.
Assim, uma recomendação para quem tem dívida no cartão é lembrar sempre que o que está impresso na fatura é como jornal, já aconteceu. E o fato de ter restado um resíduo que não foi pago, por mais absurdo que pareça, também não é falta da operadora de cartão de crédito, mas sim um descuido da vendedora.
Leia com atenção o contrato
Descuido esse que lhe custou muito caro, mais precisamente, cerca de R$ 800, já que quando efetivamente pagou a dívida ela havia quintuplicado frente ao valor inicial de R$ 200. No caso de Vânia, teria sido melhor ela ter efetuado o pagamento em dia, e depois questionar sua cobrança, ou então pedir revisão da fatura antes do vencimento da data de pagamento.
Ignorar a dívida só piorou sua situação. Teria sido melhor até mesmo pagar a quantia da qual não estava de acordo, e depois pedir restituição, mesmo perdendo a oportunidade de gastar este dinheiro ou aplicá-lo, do que ter que pagar juros sobre ele.
Ninguém nega que existem abusos por parte das operadoras de cartão de crédito, mas como parte interessada na situação, você deve se manter atento à evolução da sua dívida, e agir o mais rápido possível. Este é o tipo de situação em que deixar para amanhã só piora tudo.
Portanto, leia atentamente o contrato de adesão. Veja em quais condições a operadora pode rever as taxas, quais as penalidades por não pagamento em dia, etc. Apesar de ter argumentado que não recebeu as faturas, Vânia teve que arcar com a dívida, pois o contrato previa que ela devia comunicar qualquer alteração de endereço.
Muitas operadoras colocam os dados mais importantes em letras minúsculas, mas isso não serve como defesa, sobretudo, se o documento tiver sua assinatura. Não se iluda! Nada vem com tanta facilidade, sem um custo. O fato de se tratar de crédito pré-aprovado facilita a sua vida, pois você tem o dinheiro em mãos, mas traz consigo mais responsabilidades.
Os termos e obrigações variam muito de cartão para cartão. Portanto, mesmo que este seja seu quinto cartão de crédito, e você acredite já conhecer os termos, leia todos os itens do contrato de adesão, com o máximo cuidado.
Exija seus direitos
Se suspeitar de uma cobrança indevida ou do cálculo equivocado do saldo devedor, você tem o direito de pedir esclarecimento à operadora de como foram feitos os cálculos. Este direito lhe é assegurado pelo Código de Defesa do Consumidor, e você deve exercê-lo se achar que houve abuso.
No caso de Vânia, é possível que, se tivesse reclamado dos seus direitos e pedido uma revisão da cobrança, ela fosse bem sucedida. Do ponto de vista da operadora, poderá valer mais a pena oferecer um desconto no saldo residual devido, e garantir que ela permaneceria com o cartão, do que deixar a situação sair do controle.
Aqui não existem regras claras, e as operadoras tendem a analisar a situação do consumidor de maneira individual, muitas vezes de olho no seu potencial futuro de uso do cartão. Exatamente por isso é mais fácil conseguir renegociar uma dívida no final do ano, quando as operadoras querem que as pessoas voltem a consumir. Por que não aproveitar esta oportunidade para finalmente quitar a sua fatura e começar o próximo ano com o pé direito?
Finanças pessoais: você gasta muito ou ganha pouco?
Falamos recentemente sobre a definição de um devedor compulsivo.
A maioria é composta de compradores compulsivos, cuja intenção
não é necessariamente a de comprar um bem, mas sim de comprar
independência, controle, auto-estima, e até mesmo carinho.
E é ai, segundo os Devedores Anônimos (DA), que reside o perigo.
Assim que você começa a gastar dinheiro para preencher algum
tipo de vazio, o risco de se tornar compulsivo é bastante grande.
Para o DA existem basicamente dois tipos de devedores: os gastadores e os
que gastam como se ganhassem bem.
Fazem parte do grupo dos gastadores aquelas pessoas que, mesmo ganhando em linha com o seu potencial, acabam gastando ainda mais, e logo se encontram em dificuldades financeiras. O segundo grupo, por sua vez, é composto de pessoas que ganham menos do que poderiam, mas gastam em linha com a renda que poderiam ter. Ainda que o diagnóstico seja distinto, o resultado é o mesmo: excesso de dívidas.
Em qual dos perfis você se encaixa?
A engenheira Ana Carolina lembra que depois de uma enorme discussão com o seu ex-marido, ela saiu e gastou mais de R$ 2 mil em um aparelho de som para o seu filho. "Minha intenção era provar que eu o amava mais que seu pai", lembra a engenheira.
Apesar do bom salário, R$ 7,5 mil por mês, e de dividir com
o ex-marido as despesas com o filho, ela não consegue fechar um mês
sem usar o limite do cheque especial, ou rolar parte da fatura do cartão
de crédito. Ela confessa que não sabe ao certo como gasta
seu dinheiro, mas que certamente despende mais do que precisa com roupas
e jóias.
"Desde que me separei, eu compenso minha baixa auto-estima com compras
de bens de luxo", afirma ela. "Não há dúvidas
que me enquadro no perfil da gastadora, pois ganho bem e consigo gastar
ainda mais que isso", define
.
Perfil distinto tem o artista plástico Mauro Ferreira. Ele acredita que boa parte do seu perfil gastador herdou dos pais, que adotavam uma atitude irresponsável com relação ao dinheiro. Também artistas, ele não se lembra de nenhuma época em que seus pais tiveram um trabalho definido, mas ainda assim gastavam como se fossem artistas de novela.
Como seus pais, ele vem perseguindo uma carreira de artista, mas até
agora sem sucesso. Ainda assim, continua gastando como se tivesse uma renda
estável. "Vivo de pequenos trabalhos, às vezes vendo
alguns quadros, junto algum dinheiro, mas gasto tudo em questão de
dias".
Universitários sem formação?
Em comum, Ana e Mauro têm o fato de que, apesar da formação universitária, não gozam de educação financeira suficiente para ter controle sobre suas finanças pessoais. Apesar de terem concluído seu curso universitário, nenhum deles recebeu qualquer educação financeira.
Bombardeadas constantemente pela oferta fácil de crédito, pessoas como Ana e Mauro não conseguem resistir à tentação e acabam se atolando ainda mais em dívidas. Infelizmente o caso deles deixou há muito tempo de ser uma exceção, e em parte isso reflete a própria realidade do País.
Acostumados com a declaração de que a dívida pública
está fora de controle, e com o anúncio de que políticos
irresponsáveis anunciam novos gastos para os quais não têm
verbas, a maioria dos brasileiros acredita que não seja possível
viver de outra forma.
O grande problema é que o endividamento excessivo prejudica a todos,
e não apenas os diretamente envolvidos. Até mesmo os bancos,
que em teoria têm mais a ganhar. Afinal, o banco só ganha se
o cliente pagar em dia, tanto que muitas instituições já
investem em propagandas convidando o correntista ao uso responsável
do crédito. Porque crédito é bom, desde que se saiba
usá-lo.
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